Início · Artigos · 01

Energia off-grid · tributação

O Brasil taxa a bateria — e o off-grid vive dela

Quase quatro em cada cinco reais de um sistema de armazenamento são imposto. Para quem está ligado na rede, a bateria ainda é um extra. Para quem está fora dela, é o que acende a luz depois do pôr do sol.

4 de setembro de 2026 8 min de leitura SolOff
79%do custo da bateria é tributo
84,8%carga máxima, segundo a Absolar
25%imposto de importação da LFP 48V
70%do BESS brasileiro está isolado

Um sistema solar on-grid vende o excedente para a concessionária. O off-grid não tem para quem vender. O que o painel gera de dia precisa caber numa bateria — senão, à noite, sobra o gerador.

Por isso o armazenamento não é acessório. É o coração do sistema. E é exatamente nele que o Brasil concentra a carga tributária mais pesada da cadeia solar.

A conta que o off-grid não consegue evitar

Em julho de 2025, a consultoria Greener mostrou, em reportagem da Folha de S.Paulo, que os tributos respondem por cerca de 79% do custo total de adesão a um sistema de baterias. Só o ICMS leva 36% dessa conta. A própria bateria, segundo Marcio Takata, CEO da Greener, concentra quase 70% do preço da solução — o resto é inversor, software e o que mais completa o conjunto.

A Absolar vai além: a tributação sobre o armazenamento pode chegar a 84,8%, mais que o dobro da carga que incide sobre as fontes renováveis. A associação pede a equalização desses impostos. Enquanto isso não acontece, quem precisa guardar energia — e não só gerar — paga duas vezes.

Precisamos avançar de um modelo em que parte da energia renovável disponível é desperdiçada para um sistema capaz de armazená-la e utilizá-la quando ela for mais necessária. Bárbara Rubim, presidente do conselho da Absolar

O recado vale para o sistema elétrico inteiro. No off-grid, ele é literal: sem bateria, a geração solar acaba no horizonte.

O recorte que acerta o sítio, não a usina

Em 18 de maio de 2026, o Gecex — Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior — publicou a Resolução nº 893. O Imposto de Importação das baterias de íon de lítio (NCM 8507.60.00) subiu de 18% para 25%, válido até 18 de maio de 2027.

O aumento não é genérico. Ele mira um formato específico: baterias de lítio ferro fosfato (LFP) de 48 V para aplicações estacionárias em estações de telecomunicações e em sistemas fotovoltaicos de até 4,8 kW. Ou seja: o kit mais comum em casa, sítio e pequeno estabelecimento.

É o tamanho em que está a maior parte da demanda importada hoje, segundo o Instituto Nacional de Energia Limpa (Inel), que se posicionou contra a medida. WEG, Enersys e Moura apoiaram o pleito de proteção à indústria nacional. O Inel argumentou que a tarifa repete o erro já visto nos módulos fotovoltaicos: o preço sobe, o volume cai, e a fábrica local não ganha escala o bastante para substituir o importado.

Em cima do imposto de importação vêm IPI (cerca de 11,25%), PIS-Importação (2,10%) e Cofins-Importação (9,65%). Estimativas do mercado apontam um acréscimo de R$ 800 a R$ 1.400 no preço final de um conjunto de 10 kWh — o suficiente para mudar o payback de um off-grid residencial.

O descompasso fiscal. Painéis, inversores, controladores de carga e estruturas de fixação têm IPI zero desde 2022. A bateria, peça sem a qual o off-grid não existe, ficou de fora.

Onde a rede não chega, 93% ainda é fóssil

A ironia é geográfica. Cerca de 70% da capacidade de baterias instalada no Brasil está em sistemas isolados — exatamente onde a rede não chega. Em 2025, o país caminhava para 1 GWh de armazenamento; a maior fatia não estava nas usinas, estava fora do Sistema Interligado Nacional.

São 160 sistemas isolados, que atendem quase dois milhões de pessoas. A Empresa de Pesquisa Energética estima que 93% da geração nessas localidades ainda vem de fonte fóssil: 70% diesel, 23% gás. O planejamento para 2026–2030 prevê 180 MW de solar e 308 MWh de baterias até 2028. Sem armazenamento, o painel no meio da Amazônia apaga ao entardecer, e o gerador volta a ligar.

Cada ponto percentual a mais no imposto da bateria é um ponto a menos na competitividade contra o diesel. Quem vive no sítio, na fazenda ou na comunidade isolada não está escolhendo entre on-grid e híbrido. Está escolhendo entre bateria e óleo.

A lei que ajuda o grande projeto — e esquece o off-grid pequeno

A Lei 15.269/2025 deu um passo: incluiu o armazenamento no REIDI, com teto de R$ 1 bilhão ao ano em desoneração até 2030, e autorizou o Executivo a zerar o Imposto de Importação de baterias BESS. No papel, é o reconhecimento de que bateria é infraestrutura.

Na prática, o REIDI serve a projeto de infraestrutura. Não serve ao dono do sítio que compra um banco de 10 kWh. O decreto que zeraria o imposto de importação ainda precisa ser editado. E, no mesmo período, a alíquota do formato mais usado em sistemas pequenos subiu para 25%.

O resultado é um país que desonera a usina e taxa a noite de quem está fora da rede.

O que isso muda no orçamento de quem quer sair da concessionária

Para o off-grid, a conta é direta. A bateria já é o item mais caro do sistema. Imposto em cima dela alonga o prazo em que o gerador ainda “se paga” — e atrasa a decisão de desligar o diesel de vez.

Enquanto o painel ficou mais barato ao longo da década, o armazenamento no Brasil continua preso a uma lógica fiscal de bem de consumo importado, não de equipamento de geração. Off-grid sem bateria é um sistema que só funciona enquanto o sol está no céu. E o sol, neste país, se põe todo dia.

A SolOff dimensiona sistemas para funcionar de noite. Isso inclui ser honesto sobre o preço: o imposto está no orçamento, não é surpresa na nota. Se a regra mudar — e a Absolar, a Greener e o próprio planejamento da EPE indicam que precisa mudar — o off-grid brasileiro fica ao alcance de muito mais gente.

Até lá, o caminho continua o mesmo: medir a carga, dimensionar a autonomia, e tratar a bateria como o que ela é — a peça que transforma o dia em energia de verdade.

Fontes

  1. Greener / Folha de S.Paulo, “Impostos representam 79% do custo de sistemas de baterias”, 2 jul. 2025.
  2. Absolar, agenda “Bateria Brasil” na Intersolar South America: carga tributária de até 84,8% sobre armazenamento.
  3. Resolução Gecex nº 893, de 15 de maio de 2026 (DOU 18/05/2026): II de 18% para 25% no NCM 8507.60.00, até 18/05/2027.
  4. NCM 8507.60.00 — acumuladores de íon de lítio: IPI 11,25%, PIS-Importação 2,10%, Cofins-Importação 9,65%.
  5. EPE, Planejamento do Atendimento aos Sistemas Isolados (ciclo 2025): 93% de geração fóssil; 180 MW solar e 308 MWh de baterias até 2028.
  6. Lei 15.269/2025: inclusão do armazenamento no REIDI e autorização para zerar o Imposto de Importação de BESS.

Próximo passo

Quer o número com bateria inclusa — imposto e tudo?

Manda o que você gasta com gerador. A gente responde com um sistema que acende de noite, sem esconder a carga tributária no meio do orçamento.

Falar no WhatsApp
WhatsApp