Um sistema solar on-grid vende o excedente para a concessionária. O off-grid não tem para quem vender. O que o painel gera de dia precisa caber numa bateria — senão, à noite, sobra o gerador.
Por isso o armazenamento não é acessório. É o coração do sistema. E é exatamente nele que o Brasil concentra a carga tributária mais pesada da cadeia solar.
A conta que o off-grid não consegue evitar
Em julho de 2025, a consultoria Greener mostrou, em reportagem da Folha de S.Paulo, que os tributos respondem por cerca de 79% do custo total de adesão a um sistema de baterias. Só o ICMS leva 36% dessa conta. A própria bateria, segundo Marcio Takata, CEO da Greener, concentra quase 70% do preço da solução — o resto é inversor, software e o que mais completa o conjunto.
A Absolar vai além: a tributação sobre o armazenamento pode chegar a 84,8%, mais que o dobro da carga que incide sobre as fontes renováveis. A associação pede a equalização desses impostos. Enquanto isso não acontece, quem precisa guardar energia — e não só gerar — paga duas vezes.
Precisamos avançar de um modelo em que parte da energia renovável disponível é desperdiçada para um sistema capaz de armazená-la e utilizá-la quando ela for mais necessária. Bárbara Rubim, presidente do conselho da Absolar
O recado vale para o sistema elétrico inteiro. No off-grid, ele é literal: sem bateria, a geração solar acaba no horizonte.
O recorte que acerta o sítio, não a usina
Em 18 de maio de 2026, o Gecex — Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior — publicou a Resolução nº 893. O Imposto de Importação das baterias de íon de lítio (NCM 8507.60.00) subiu de 18% para 25%, válido até 18 de maio de 2027.
O aumento não é genérico. Ele mira um formato específico: baterias de lítio ferro fosfato (LFP) de 48 V para aplicações estacionárias em estações de telecomunicações e em sistemas fotovoltaicos de até 4,8 kW. Ou seja: o kit mais comum em casa, sítio e pequeno estabelecimento.
É o tamanho em que está a maior parte da demanda importada hoje, segundo o Instituto Nacional de Energia Limpa (Inel), que se posicionou contra a medida. WEG, Enersys e Moura apoiaram o pleito de proteção à indústria nacional. O Inel argumentou que a tarifa repete o erro já visto nos módulos fotovoltaicos: o preço sobe, o volume cai, e a fábrica local não ganha escala o bastante para substituir o importado.
Em cima do imposto de importação vêm IPI (cerca de 11,25%), PIS-Importação (2,10%) e Cofins-Importação (9,65%). Estimativas do mercado apontam um acréscimo de R$ 800 a R$ 1.400 no preço final de um conjunto de 10 kWh — o suficiente para mudar o payback de um off-grid residencial.
Onde a rede não chega, 93% ainda é fóssil
A ironia é geográfica. Cerca de 70% da capacidade de baterias instalada no Brasil está em sistemas isolados — exatamente onde a rede não chega. Em 2025, o país caminhava para 1 GWh de armazenamento; a maior fatia não estava nas usinas, estava fora do Sistema Interligado Nacional.
São 160 sistemas isolados, que atendem quase dois milhões de pessoas. A Empresa de Pesquisa Energética estima que 93% da geração nessas localidades ainda vem de fonte fóssil: 70% diesel, 23% gás. O planejamento para 2026–2030 prevê 180 MW de solar e 308 MWh de baterias até 2028. Sem armazenamento, o painel no meio da Amazônia apaga ao entardecer, e o gerador volta a ligar.
Cada ponto percentual a mais no imposto da bateria é um ponto a menos na competitividade contra o diesel. Quem vive no sítio, na fazenda ou na comunidade isolada não está escolhendo entre on-grid e híbrido. Está escolhendo entre bateria e óleo.
A lei que ajuda o grande projeto — e esquece o off-grid pequeno
A Lei 15.269/2025 deu um passo: incluiu o armazenamento no REIDI, com teto de R$ 1 bilhão ao ano em desoneração até 2030, e autorizou o Executivo a zerar o Imposto de Importação de baterias BESS. No papel, é o reconhecimento de que bateria é infraestrutura.
Na prática, o REIDI serve a projeto de infraestrutura. Não serve ao dono do sítio que compra um banco de 10 kWh. O decreto que zeraria o imposto de importação ainda precisa ser editado. E, no mesmo período, a alíquota do formato mais usado em sistemas pequenos subiu para 25%.
O resultado é um país que desonera a usina e taxa a noite de quem está fora da rede.
O que isso muda no orçamento de quem quer sair da concessionária
Para o off-grid, a conta é direta. A bateria já é o item mais caro do sistema. Imposto em cima dela alonga o prazo em que o gerador ainda “se paga” — e atrasa a decisão de desligar o diesel de vez.
Enquanto o painel ficou mais barato ao longo da década, o armazenamento no Brasil continua preso a uma lógica fiscal de bem de consumo importado, não de equipamento de geração. Off-grid sem bateria é um sistema que só funciona enquanto o sol está no céu. E o sol, neste país, se põe todo dia.
A SolOff dimensiona sistemas para funcionar de noite. Isso inclui ser honesto sobre o preço: o imposto está no orçamento, não é surpresa na nota. Se a regra mudar — e a Absolar, a Greener e o próprio planejamento da EPE indicam que precisa mudar — o off-grid brasileiro fica ao alcance de muito mais gente.
Até lá, o caminho continua o mesmo: medir a carga, dimensionar a autonomia, e tratar a bateria como o que ela é — a peça que transforma o dia em energia de verdade.
Fontes
- Greener / Folha de S.Paulo, “Impostos representam 79% do custo de sistemas de baterias”, 2 jul. 2025.
- Absolar, agenda “Bateria Brasil” na Intersolar South America: carga tributária de até 84,8% sobre armazenamento.
- Resolução Gecex nº 893, de 15 de maio de 2026 (DOU 18/05/2026): II de 18% para 25% no NCM 8507.60.00, até 18/05/2027.
- NCM 8507.60.00 — acumuladores de íon de lítio: IPI 11,25%, PIS-Importação 2,10%, Cofins-Importação 9,65%.
- EPE, Planejamento do Atendimento aos Sistemas Isolados (ciclo 2025): 93% de geração fóssil; 180 MW solar e 308 MWh de baterias até 2028.
- Lei 15.269/2025: inclusão do armazenamento no REIDI e autorização para zerar o Imposto de Importação de BESS.
Próximo passo
Quer o número com bateria inclusa — imposto e tudo?
Manda o que você gasta com gerador. A gente responde com um sistema que acende de noite, sem esconder a carga tributária no meio do orçamento.